Marina Carneiro de Oliveira1 e Rogério Silva2, consultores do Fonte conversam sobre os últimos 15 anos de formação/profissionalização de profissionais que trabalham em prol do desenvolvimento social do Brasil e relatam a experiência do Fonte ao longo da sua trajetória.
mediação: Tânia Crespo – Instituto Fonte
Um breve panorama
Marina - Até 15 anos atrás, a Academia oferecia para o profissional que atua no campo social, cursos tradicionais de graduação e pós-graduação tais como ciências sociais, psicologia social e assistência social. De lá para cá, as Universidades passaram a oferecer cursos especializados no Terceiro Setor, primeiro de extensão, e posteriormente de pós-graduação, a exemplo do CEATS/USP, CETS/FGV, NEPOL/UFBA e do NEATS/PUCSP, alguns deles em colaboração com o Instituto Fonte. A maioria destes cursos tinha forte enfoque na profissionalização da gestão do Terceiro Setor e das Organizações da Sociedade Civil, a meu ver, partindo da leitura que as OSCs trabalhavam de maneira mais caritativa e pouco profissional. Isso contribuiu para fortalecer um contingente diverso de profissionais, oriundos da academia que agora direcionam a atuação no campo social, além de grande contingente de profissionais, autônomos, consultores para atuar junto às Organizações da Sociedade Civil.
A ECO 92 e a realização do III Encontro Ibero-Americano do Terceiro Setor em 1996 no Brasil foram eventos marcantes da década de 90 que contribuíram para que a sociedade atentasse para a profissionalização do Terceiro Setor – e é nesse período, também, que as iniciativas de formação começam a surgir com mais força. O Prêmio Bem Eficiente lançou os trabalhos das ONGs na grande mídia; o novo Marco Legal do Terceiro Setor proposto pelo governo FHC, foram alguns dos fatores que corroboraram para que surgissem iniciativas de fomento à profissionalização das organizações da sociedade civil.
Simultaneamente, ocorria o desenvolvimento do Investimento Social Privado e da Responsabilidade Social Empresarial no país. O GIFE e seus associados passaram a ter papel importante no fomento à profissionalização do campo. A cultura do apoio financeiro a projetos por fundações e institutos enraizou-se, atrelada ao apoio técnico através de cursos de capacitação para as organizações beneficiadas.
Uma organização que exerceu grande influência no setor foi a Fundação W K Kellogg. Ela apoiou o fortalecimento do campo através de bolsas de estudos para formações no exterior, no apoio a projetos e cursos de formação de lideranças sociais e rurais, realizando seminários itinerantes ou locais e promovendo o intercâmbio de profissionais de outros países, principalmente da América Latina e dos EUA. Podemos dizer que o próprio Instituto Fonte é fruto de iniciativas apoiadas pela Kellogg, uma vez que boa parte do grupo que depois o consistiria participou de suas formações.
É importante ressaltar que outras organizações da sociedade civil também ofereciam cursos voltados para as suas áreas tema: direitos humanos, políticas públicas, gênero, geração de renda, etc., a exemplo do Instituto Paulo Freire e do Instituto Pólis.
Rogério – Outro fato que marca o período é o surgimento do conceito “Gestão Social”, também oriundo da Academia, presente em Núcleos de estudos e em cursos de pós-graduação em várias Universidades, que vem refletindo sobre teorias e práticas que se diferenciam das lógicas hegemônicas da administração de empresas. Desde 2003, uma rede de pesquisadores organiza o Encontro Nacional de Pesquisadores em Gestão Social (veja nota do Direto do Fonte), apresentando reflexões mais contemporâneas, buscando diálogo com movimentos sociais, governos e organizações da sociedade civil, evidenciando experiências inovadoras de gestão.
As formações em pedagogia social também favoreceram a capacitação de profissionais do campo social, a exemplo dos Seminários de Pedagogia Social, da Associação de Pedagogia Social, e o Programa Germinar, do Instituto ECOSOCIAL, que capacita líderes facilitadores e profissionais envolvidos com a temática do terceiro setor. Além disso, é importante lembrar o surgimento da Aliança Interage em Pernambuco, do ICOM em Florianópolis, da Parceiros Voluntários no Rio Grande do Sul, bem como da ABDL, do IDIS, do FICAS e da Casa 7 em São Paulo, organizações muito diferentes entre si, mas muito sensíveis à formação de profissionais e gestores para atuarem no campo social. Isto apenas para citar alguns, pois há muitos outros atores ocupados da questão da formação. Por exemplo, no campo dos financiadores, é notável o quanto o Instituto C&A e o Itaú Social, parceiros do IF, vêm produzindo e apoiando nesta área.
Marina – Acrescento ainda que nos últimos 10 anos, principalmente, notamos um aumento significativo da oferta de cursos focados em ferramentas de gestão para profissionais do campo social. A maioria desses cursos nasceu da crença de que as Organizações da Sociedade Civil precisam ou podem se beneficiar do acúmulo, da tecnologia, dos modelos de administração oriundos do mundo dos negócios. Atualmente, vejo que as organizações estão também ponderando sobre o fato de que tais ferramentas são distintas daquelas necessárias ao mundo social e, de certo modo, se os cursos se mantiverem na simples transposição de saberes, sem a devida atenção ao que é singular, não irão potencializar o setor, o que parece ser o seu desejo.
Os caminhos das formações do Instituto Fonte
Marina - O F.O.N.T.E, que na época atuava com o Instituto Christophorus (duas Instituições que deram origem ao Instituto Fonte) surgiu da institucionalização de um projeto chamado Projeto DIES - Desenvolvimento Institucional de Entidades Sociais, que contou com o apoio da Fundação Orsa e da Fundação Kellogg. Naquele momento, a formação era voltada para que os gestores assumissem responsabilidades por essas iniciativas, por meio de uma abordagem que focava tanto a gestão das OSCs, como a compreensão dos processos de desenvolvimento organizacional. O DIES despontou como pioneiro na capacitação em fortalecimento institucional. Neste projeto, inauguramos uma perspectiva de considerar as organizações como organismos vivos e complexos, e procuramos apoiar o desenvolvimento da capacidade dos gestores em lidarem com tensões e momentos de crise, a identificarem os tipos de forças que atuam em cada situação, a compreenderem a necessidade de fomentar habilidades de trabalho em rede – discussão emergente em 1997, quando iniciamos o Projeto DIES. O Fonte se colocava disposto a ajudar instituições a entender o seu processo de amadurecimento e a dar sentido próprio à idéia de profissionalização: profissionalizar o que? Por que razões? De que maneira? São perguntas chave hoje, como já eram naquele momento.
Rogério - O Projeto DIES distinguiu-se de um projeto de formação “clássico” – na medida em que desenvolvia a capacidade de gestão, de apoio a mudança institucional e de fomento à ajuda mútua. Este tipo de formação, na época, não era oferecida para gestores de organizações da sociedade civil.
Marina - Realizamos diversas formações nessa área buscando desenvolver habilidades de compreensão, olhando para como as organizações se desenvolviam, para além da aquisição de técnicas e ferramentas de gestão. Outro Programa, o Iniciativas Sociais e Desenvolvimento, realizado entre 2004 e 2006, realizada numa parceria Fonte e Ashoka, enfocava a compreensão de fenômenos arquetípicos de desenvolvimento institucional.
Nossas formações levam em conta que o individuo é responsável pelo seu próprio caminho de aprendizagem. Não adianta pagar e esperar que o conteúdo seja absorvido: o profissional de desenvolvimento, a meu ver, é acima de tudo um profissional em desenvolvimento, uma pessoa que está desperta, que cuida do próprio caminho de aprendizagem, constantemente. Desde a criação do IF, temos trabalhado com líderes sociais que estão imersos numa complexidade de organizações e interrelações no campo social. Estão qualificando a sua compreensão e sua capacidade de se relacionar com outros atores, e de intervir. Mais do que isso, essas pessoas estão fortalecendo as capacidades de contribuir com o desenvolvimento dos grupos, organizações e pessoas.
Rogério - Em 2004, que em função da nossa experiência em consultoria, percebemos que havia uma necessidade que não estava sendo atendida: a de ajudar profissionais experientes no campo social a aprofundarem a compreensão sobre o impacto de suas ações. Estes profissionais não precisavam de técnicas de gestão, e já tinham participado de diversos cursos temáticos, mas encontravam muita dificuldade em lidar com a complexidade do setor, em estabelecer relações com todos seus stakeholders e compreender as crises com as quais as organizações passavam. Sentiam-se sozinhos com as questões e, por causa disso, decidimos realizar o Profides.
Profides – “A Arte e o Ofício de ajudar o mundo a mudar”
Marina - Gradualmente os profissionais do campo social começaram a perceber que havia uma área de conhecimento, uma disciplina com enfoque em desenvolvimento humano, organizacional, comunitário e social. Foi possível perceber que havia conhecimento acumulado, atitudes, habilidades que se podiam ser desenvolvidas para que profissionais tivessem condições de lidar com a complexidade do campo social. O Profides tem contribuído com a concepção de que organizações estão vivas, são constituídas por processos que não podem ser controlados, mas que podem ser compreendidos para então, ser mais bem assistidos. É quase como dizer que o Profides tenta contribuir com o campo social ao jogar luz para o caráter complexo das questões sociais. Ousaria dizer que o Profides tenta resgatar muito da vida é deixada à margem quando se prioriza o uso de ferramentas de administração.
O objeto de trabalho do Profides é o individuo refletindo sobre a sua prática social: sobre o modo como ele intervem no mundo, os métodos de que lança mão, a maneira como se estabelece suas relações, as premissas subjacentes, a concepção de desenvolvimento humano e de sociedade na qual a sua prática – muitas vezes, inconscientemente - está enraizada. O Profides também busca ajudar o profissional a perceber esses aspectos na prática de outros, como por exemplo, a concepção de desenvolvimento que norteia uma política pública, ou um projeto social, ou a política de investimento de um financiador.
Rogério – Se por um lado todo o movimento de profissionalização dos últimos 20 anos produziu organizações mais sólidas do ponto de vista estrutural, mais transparentes na mobilização e gestão de seus recursos, mais influentes na sociedade e mais enraizadas no tecido social brasileiro, também é verdade que a profissionalização produziu certos fenômenos de esvaziamento político nas organizações, como se trocássemos o calor da reflexão, pela firmeza (às vezes frieza) das técnicas de gestão. É por aí que podemos ler vários fenômenos de afastamento entre ONGs e Movimentos Sociais, entre lideranças do campo social e lideranças partidárias. E esse é um belo objeto de estudo e reflexão nos dias de hoje, porque parece que a luta é para produzir alianças e sinergia entre estes jeitos de fazer prática social.
Desafios e lacunas
Rogério – Acho que Marina e eu concordamos que se trata de fazer formação política dos indivíduos, o que implica atravessar as barreiras de preconceito com a ideia de político. Precisamos formar para que os sujeitos amplifiquem e aprofundem sua capacidade de fazer leituras da realidade, sobre como lidar com poder, como compreender as suas relações, como negociar, como construir acordos vivos e transparentes, como ceder e avançar, como operar para produzir sinergia com as forças que estão no mundo. E isto, anos depois da efervescência dos anos 60 e 70, continua sendo dimensão pouco trabalhada na formação dos profissionais do campo social, profissionais de desenvolvimento, como preferimos dizer.
Olhemos o Fórum Social Mundial, em seus dez anos de produção, para compreender que grande parcela dos movimentos sociais seguiram fazendo formação política, e parece que vivemos agora o desafio de articular essas duas dimensões. Acho que no Profides a gente vem tentando aproximar esses movimentos.
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Você tem razão!!
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