Ao olhar para a sustentabilidade das nossas organizações, a questão da transparência parece ganhar sentidos ainda mais aquecidos nas reflexões contemporâneas sobre gestão. Estamos conseguindo enxergar quão centrais serão os atos de transparência para o futuro das organizações?
Editorial por Rogério Silva
Diretor Executivo do Instituto Fonte
Caros leitores,
Registra a história que Pompéia, esposa do imperador romano Júlio César, teria recebido a ordem de divórcio do marido logo depois que a sociedade romana teria sido tomada por suspeitas a respeito da fidelidade da esposa para com seu marido. Mesmo considerando a mulher inocente, o imperador justificava a contradição de sua conduta com a célebre frase “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Você já se viu afirmando algo assim?
Para além das conotações patriarcais e machistas da história, importante objeto para futuras reflexões, temas como integridade, honestidade e transparência têm sido associados à história de Pompéia, naquilo que parece ser uma tentativa de evocar a transparência como ação pró-ativa ou antecipada que se espera dos sujeitos e das organizações para com a sociedade; mais especificamente, em direção a seus apoiadores, financiadores, parceiros e usuários (stakeholders). Sua organização tem conversado em relação a estes temas?
Ao olhar para a sustentabilidade das nossas organizações, a questão da transparência parece ganhar sentidos ainda mais aquecidos nas reflexões contemporâneas sobre gestão. Se a existência de uma organização está em boa medida determinada pelo produto de equações de governança que articulam variáveis como necessidades da sociedade, mobilização de recursos, competência técnica, mérito e relevância das intervenções, podemos enxergar quão centrais serão os atos de transparência para o futuro das organizações?
Ao lado da vertente fiscal que demanda de cada ONG profunda responsabilidade com os recursos que sociedade lhes confere e empresta, o que implica o desenvolvimento de procedimentos consistentes e precisos de contabilidade e prestação de contas, como produzir processos organizacionais que tornem evidentes as raízes de nossas ações e sua relevância para a sociedade? Temos trabalhado com perguntas como: a que direitos sociais vinculamos as práticas de nossa organização? A que imperativos éticos servimos com nosso trabalho? Quais são nossos territórios de ação, nossas populações e suas demandas? Quem são nossos principais stakeholders? Como nutrir relações cada vez mais robustas e leais com cada um deles? Que diferenças realmente fazemos considerando a maneira como intervimos na realidade?
Por valorizar esta discussão e estar interessado em apoiar processos dialógicos que ampliem a compreensão e as práticas de transparência e responsabilidade entre as ONGs é que preparamos este boletim. Última edição de 2009, este Direto do Fonte chega a suas mãos em mais um momento em que a grande mídia insiste em apresentar notícias que, entre parcos fatos e opiniões imperativas, condenam a política, as instituições públicas, as empresas e os partidos a um “grande caminhão de mesma coisa”, como dizia meu saudoso professor Moraes, nos pedindo tranqüilidade para discernir.
Diante disso tudo, sua organização tem conversado e revisado a transparência dos processos e das relações nas quais está envolvida? Quais são seus mecanismos e qual a qualidade de seus relatórios de prestação de contas? Sua organização mantém diálogos com seu escritório de contabilidade, capazes de gerar aprendizagem fiscal e financeira? Sua organização já passou por uma auditoria externa? Quais são suas formas de prestar contas à sociedade? Elas têm alcançado que sentido para a sustentabilidade de sua organização?
Para tratar destes temas e ativar mais campos de trocas e estudos, convidamos Carolina Andion, Coordenadora do Projeto Transparência, do Instituto Comunitário da Grande Florianópolis (ICom), para falar de sua experiência com o tema e, mais em particular, sobre o Portal da Transparência, que tem o apoio do Instituto C&A e a parceria de diversas instituições brasileiras, entre as quais o próprio Instituto Fonte. Da onde vem a ideia de trabalhar a transparência nas ONGs? Que conceito de transparência inspira o ICom? Quais têm sido os desafios para esta temática? São perguntas como essa que Carolina procura abordar numa entrevista exclusiva para este boletim.
Para aquecer o debate, indicamos também neste boletim a leitura da Carta da Associação Brasileira de ONGs (ABONG) a respeito do processo de discussão e revisão do Marco Legal do Terceiro Setor Brasileiro. Ao longo dos últimos anos, sobretudo em torno da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, o trabalho da ABONG tem sido fundamental para nutrir o Congresso Nacional com discussões técnicas, éticas e políticas relevantes sobre a realidade das ONGs brasileiras.
Com este boletim, queremos também dizer um eloqüente muito obrigado a nossos clientes, participantes em cursos e eventos, parceiros, colaboradores e fornecedores, por todas as oportunidades de cooperação e trabalho que nos proporcionaram tanta realização e aprendizagens em 2009. Que em 2010 sigamos mais uma vez juntos, neste árduo e permanente caminho que é fazer o campo social brasileiro.
Esperamos que os conteúdos deste Direto do Fonte encontrem sentido em sua realidade organizacional e possam fomentar momentos de discussão e revisão desta importante temática em sua organização. Encontraremos maneiras e sentidos para evitar o fardo de Pompéia? Fale conosco e boa leitura.
Rogério Silva
Diretor Executivo
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