O consultor sul-africano Allan Kaplan*, autor do livro 'Artista do Invisível - O processo social e o profissional de desenvolvimento', fala a respeito de como a escrita está relacionada ao processo de aprendizagem: "quando você escreve é obrigado a clarificar pensamentos que não estão necessariamente claros e torná-los objetivos. Neste processo você também aprende"

 

 

Instituto Fonte - Porque você escreveu o livro Artistas do Invisível e o que é importante a respeito de escrever em um processo de aprendizagem?
Allan Kaplan - Eu escrevi o livro porque eu pensei que tinha coisas que precisava dizer e coisas que eu poderia dizer a mais pessoas de uma única vez. E também porque eu adoro escrever, me deixa muito feliz.Gosto de escrever como uma atividade artística. Na verdade o livro foi escrito menos para ajudar outras pessoas a aprender e mais para mim mesmo, para ajudar a clarear minhas próprias idéias. Porque quando você escreve é obrigado a pegar pensamentos e idéias que não estão necessariamente claros e clarificá-los.
 
Você tem que articulá-los e torná-los objetivos e neste processo você também aprende. Não havia um monte de coisas na minha cabeça que eu achava que tinha que escrever para uma porção de gente ler. Eu tinha perguntas na minha cabeça e escrevi de forma a encontrar respostas para estas perguntas. O que eu escrevi acabou sendo um livro, mas essa não era a idéia original.


IF - A linguagem de seu livro conversa com o conteúdo dele, ou seja, forma e conteúdo têm muito em comum. Isso é intencional? Como se dá este processo de criação?
AK - É intencional fazer isso que você diz, na minha escrita. O que eu estou falando no meu livro é a respeito de algo que pode estimular as pessoas a pensar. Pensar profundamente, diferente. Não tem a ver só com acessar informações e fazer uso destas informações. Não é um apanhado de informações que o leitor pode escolher as que lhe servem. A forma como o livro foi escrito não poderia ser só um amontoado de idéias, pois ele fala a respeito de estimulação do pensamento. Por isso ele todo foi construído de forma a estimular o leitor, enquanto ele está lendo, a aprofundar o seu pensamento. Porque ele é um livro direcionado a aprender a pensar de uma forma que não se está acostumado.

Ele foi escrito para ser uma leitura difícil, não uma leitura fácil. Muitos livros são escritos para que as coisas sejam encontradas facilmente neles. Eu não acho que esta seja a maneira certa de escrever um livro. Acredito que levar o leitor a aprofundar um pensamento de forma bastante complexa, e cada vez mais complexa, é a forma correta de agir. Isso porque nós somos obrigados, no mundo, a pensar de maneira cada vez mais complexa e lidar com sistemas cada vez mais complexos.



IF - Aprender algo verdadeiramente exige que nós saibamos que estamos aprendendo?
AK - Eu acredito que você pode estar aprendendo sem estar necessariamente consciente que está aprendendo, no momento da sua aprendizagem, daquilo que você está tomando conhecimento. No entanto eu acredito que o que é importante é que você se torne consciente daquilo que você sabe. E também consciente daquilo que não sabe. Mas o que é mais importante é que a gente se torne consciente. É essencial tomar consciência de nosso próprio processo de pensar, nosso próprio jeito de pensar.


IF - Tudo que aprendemos pode ser colocado em palavras? As palavras são importantes para o processo de aprendizagem?
AK - Isso é difícil. As palavras ajudam e não ajudam. As palavras muitas vezes obscurecem e muitas vezes limitam o que você quer dizer, porque muitas vezes o que você compreende, sabe, percebe, não é traduzível só em palavras. A compreensão sobre algo não se dá sempre da mesma forma e com as palavras a explicação é sempre linear. O pensamento nunca é linear. Então, realmente é muito difícil. Mas se você escolhe palavras com cuidado, palavras adequadas, você acabará descobrindo ainda mais sobre aquilo que você está pensando. Muito mais do que se você não usasse nenhuma palavra.         

Muitas vezes as palavras ajudam você a articular e clarificar aquilo que você está pensando. Elas também ajudam você a ir mais fundo a respeito de uma idéia ou pensamento. Mais fundo do que você iria se não estivesse escrevendo ou mesmo falando.

IF - O que significa ser um Profissional de Desenvolvimento? Como ele se reconhece?          
AK - Para mim, o que significa ser Profissional de Desenvolvimento, na verdade em qualquer área, é que o profissional responde a uma demanda de uma forma única, ou seja, uma forma adequada para cada questão. Cada pedido é respondido de uma forma diferente.  

Este profissional desenvolve um trabalho, uma ação específica e necessária para aquela questão nova com a qual está se defrontando. Um profissional de consultoria, por exemplo, não fornece ou responde a uma demanda com um pacote de treinamento.No caso do arquiteto, ele não desenha um prédio e então vai vender este projeto para as pessoas.

Como um profissional, eu acredito, você primeiro tem um cliente, uma história e um contexto, e então você responde a esta demanda de forma específica. O que significa que você encontra dentro de você mesmo as competências, a expertise e as habilidades necessárias e suficientes para atender cada cliente a partir da sua própria compreensão do que é bom nesta situação. E aí sim você encontra um ponto de encontro entre o que você acha que é necessário e adequado e o que o cliente está pedindo. Qualquer coisa que surja desta interação deve ser completamente novo.

Há profissionais em todos os campos. Um médico pode ser um profissional, um arquiteto pode ser um profissional, um capitão de um navio pode ser um profissional. Você pergunta se profissionais constroem prédios. Um pedreiro, que segue o método padronizado de construção, não está criando algo novo, ele vai fazer sempre a mesma coisa seja qual for a situação, é diferente do arquiteto. No campo social você encontra também profissionais que respondem a uma demanda fazendo um trabalho com base em algo que já foi criado para outra situação, entregando um modelo pronto de intervenção que pode não ser o ideal para aquela situação nova, diferente, com características particulares.    

Mas mesmo que este algo que ele esteja aplicando em uma nova situação tenha sito elaborado por ele, se ele está respondendo a uma situação nova com este algo que ele já havia criado antes, como se isso fosse um produto, aí então ele deixou de ser um profissional.   

Ser profissional é interagir de uma forma única e particular com cada cliente. Você fala que todo mundo deve ser responsável pelo desenvolvimento da sociedade, sim, e isso significa ser um profissional da forma como falamos. Mas nem todo mundo é capaz de responder a uma necessidade do cliente de uma forma criativa e única pra cada demanda. Muitas pessoas preferem um trabalho que possam reproduzir repetidas vezes, simplesmente.    

Nem todo mundo é capaz de ser profissional como estamos falando, porque é exaustivo, é preciso trabalhar muito e desenvolver muito suas capacidades. Esta tarefa de responder de forma única é muito grande. Porque isso significa que cada vez que você faz um trabalho você está fazendo algo novo, não algo que se repete. É muito mais recompensador, mas também mais cansativo porque você é posto na linha de frente e confrontado pelo fato de que a situação com a qual você trabalha neste momento é nova, diferente. Você não pode simplesmente pegar seus velhos produtos, suas velhas formas de agir e aplicar.


IF - O que é um bom resultado na prática do profissional de desenvolvimento e na sua prática como consultor de iniciativas sociais? Como falar de resultados na prática social?
AK - É uma pergunta muito difícil. Eu não sei se um bom resultado é possível de ser alçando ou medido. Dois grupos que vivem uma mesma situação podem ir para diferentes direções e ambas podem ser bons resultados.        

Pra mim, bons resultados em uma prática de consultoria para o desenvolvimento tem a ver com a maior consciência que o cliente adquire depois do trabalho que a gente faz com ele. A respeito da situação que ele está vivendo e a respeito dele mesmo. Mais conscientes a respeito do que eles estão fazendo, mais responsáveis pelas conseqüências de suas ações, mais consciência em relação às áreas em que eles não estão se aprofundando, daquelas que ainda permanecem obscuras em seu trabalho e assim por diante.      

É difícil falar sobre isso embora eu tenha escrito a respeito no meu livro, mas na verdade pra mim os resultados são muitos menos importantes do que a prática. Se eu, como um profissional, estou fazendo tudo que de fato eu posso fazer e com uma boa consciência das minhas intenções sobre o que eu estou fazendo, na verdade é só isso que eu posso fazer, porque na verdade resultados dependem de uma série de outros fatores externos à minha ação, não dependem só de mim.

Tudo o que eu posso fazer é fazer o melhor que eu posso. E a forma pela qual eu posso descobrir se eu estou fazendo o melhor que posso é olhar para mim mesmo cada vez de forma mais clara e refletir sempre sobre o que eu estou fazendo.

A ênfase em resultados é um erro, é um equívoco. Esse tipo de exigência não vem de um lugar que quer melhorar a prática, ela vem de um outro lugar qualquer, que está relacionado com dinheiro, com números.


IF - O profissional de desenvolvimento é um herói? Como lidar com a tensão, que existe em atuar no campo social, entre a sensação de que é preciso mudar o mundo, fazer coisas muitos grandes, e de outro lado a sensação de insuficiência, de que não é possível gerar transformação?
AK - Acreditar que o seu trabalho é fazer grandes transformações nas coisas, pode te levar a se ver como herói. Caso você se dê conta de que na verdade não pode mudar nada, que de fato a única coisa que pode mudar é a você mesmo, então talvez você se dê conta de que não vale a pena ser herói. Que na verdade o seu trabalho tem a ver com o ser humano, e não com ser um herói.    

Muitas vezes as pessoas seguem por determinados caminhos porque elas mesmas precisam deles. Fazem o que fazem acreditando que quem na verdade precisa dessas ações é a situação ou as pessoas com a as quais estão trabalhando. É comum nos sentirmos bem ao fazer algo que acreditamos estar fazendo pelos outros. Você está fazendo algo que as pessoas não podem fazer por elas mesmas, então você corre o risco de se colocar na posição de herói. Mas muitas vezes você acaba descobrindo que é você quem precisa do que está fazendo. Porque de outra forma sua vida seria vazia. Tudo que estou dizendo é que é preciso tomar cuidado com este lugar de herói.    

As pessoas que estão interagindo com uma situação precisam da situação para si mesmas - e a situação precisa de alguma coisa dessas pessoas - e é isso que precisa ser olhado. Em suma, eu não acho que o profissional de desenvolvimento é um herói, pois heróis estão prontos, e para atuar com desenvolvimento social é preciso tomar nas mãos seu próprio processo de desenvolvimento e estar sempre revendo sua intenção verdadeira.
 
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* Allan Kaplan é autor dos livros "Action learning for development", "The development practitioner handbook" e "Development practitioners and social process: artists of invisible", recém traduzido para o português e editado pelo Instituto Fonte em parceria com a Editora Peirópolis.

É, também, um dos fundadores do CDRA - Community Development Resources Association - uma organização não governamental sul-africana que há 15 anos busca fomentar o aprendizado consciente e contínuo sobre processos de desenvolvimento e a arte de neles intervir.


Para isto, realiza consultorias e capacitações junto a indivíduos, grupos e iniciativas sociais na África, Ásia e Europa e procura sistematizar o conhecimento adquirido nessas intervenções em publicações.
Informações adicionais sobre o CDRA podem ser obtidas no site www.cdra.org.za

Atualmente atua na ONG The Proteus Initiative, organização recém criada com sua ajuda.  Visite o site http://www.proteusinitiative.org/Default.aspx  para saber mais sobre a Proteus.