por Antonio Luiz de Paula e Silva
então diretor executivo do Instituto Fonte

 

A expressão “profissional de desenvolvimento” é usada para designar qualquer pessoa que trabalha primariamente pelo desenvolvimento social no país. Esse profissional pode ter formações diversas, atuar em diferentes cargos, organizações, áreas e setores, mas enfrenta sistematicamente um grande desafio: promover e ajudar a melhoria das relações entre as pessoas e contribuir para que a sociedade expanda sua consciência acerca de suas decisões e alcance melhor qualidade de vida.

Qualquer profissional de desenvolvimento lida com situações complexas, com tensão e multiplicidade de interesses, busca promover a participação e a autonomia dos grupos com os quais trabalha, se mantém interessado em compreender o contexto em que vive e em ampliar o efeito de sua atuação prática. Um profissional de desenvolvimento lida cotidianamente com significado, com valor humano, com a concepção de desenvolvimento, de liberdade e de autonomia.

Ele trabalha com aquilo que ele é para ajudar o outro a ser aquilo que o outro pode se tornar.

Muitas manifestações de pessoas que se vêem como profissionais de desenvolvimento têm chegado até o Instituto Fonte e é surpreendente constatar a diversidade de circunstâncias em que atuam. Vindas do Brasil todo, essas manifestações estão nos permitindo responder a perguntas como: O que é trabalhar com desenvolvimento no Brasil?, Quem está fazendo isso?, Como?, Que realidade esses profissionais vivem?, Que perguntas têm?, Que importância tem o trabalho que desenvolvem?, Como se sustentam?, Como apoiá-los?, Como se atualizam?, Onde se encontram?, Como são considerados?, O que os fortalece?, Que impulso representam?.

Temos concluído que esses profissionais tendem a ser pessoas indignadas, idealistas, polivalentes, voltadas para a ação, criativas (de fato, atuam como co-criadoras de uma nova realidade), conectadas e em busca (movidas por perguntas, a caminho, por assim dizer). Tem-nos instigado muito a questão “O que é maestria para um profissional de desenvolvimento?”.

No Instituto Fonte, acreditamos que o maior valor que podemos agregar à sociedade atualmente é fortalecer a atuação de profissionais de desenvolvimento e a de iniciativas sociais.
Entendemos que a atuação de ambos está relacionada: quanto mais maduro um profissional de desenvolvimento, maior capacidade ele terá de influir no amadurecimento das iniciativas sociais com as quais trabalha; quanto mais forte uma iniciativa social, maior tende a ser o alcance do trabalho dos profissionais de desenvolvimento a ela vinculados.

As iniciativas sociais podem atuar como uma espécie de “fermento” na sociedade, provocando alterações que sem sua existência poderiam demorar muito mais tempo para acontecer; elas mesmas tendem a se tornar a expressão de algo novo que emerge no seio da própria sociedade. Um bom conjunto de iniciativas sociais “desperta” a sociedade para aquilo que ela ainda pode se tornar e para aquilo que ela não deve mais fazer. Também ajudam no processo de transição, por meio do confronto e do apoio.

Uma grande questão que preocupa muitos investidores na área social é como potencializar a atuação e o impacto de iniciativas sociais. Voltadas primariamente a “promover desenvolvimento”, muitas iniciativas sociais acabam se esquecendo de si mesmas quando orientadas em excesso para “o outro”; de repente, vêem-se em situações que não gostariam de estar, insustentáveis. Isso compromete a sua atuação no longo prazo ou, dizendo de outra forma, no mínimo limita o seu potencial.

Toda e qualquer iniciativa social se estabelece e luta para manter um equilíbrio entre “desenvolver-se” e “promover desenvolvimento”. Pode-se afirmar que o potencial de uma iniciativa social é a expressão deste equilíbrio em cada momento de sua vida. Para potencializar uma iniciativa social, portanto, é preciso investir nas duas direções e, mais importante, na habilidade de sustentar os dois movimentos simultaneamente.

Sustentar, interiormente, a tensão entre “desenvolver-se” e “promover desenvolvimento” não é, também, uma capacidade essencial do profissional de desenvolvimento?