Desde o levantamento de informações e números, até a análise e sistematização dos resultados, processos de avaliação sempre foram uma questão complicada para organizações sociais. Geralmente, eles representam um medidor de sucesso, e não uma ferramenta de aprimoramento. Além disso, a avaliação é, em grande parte dos casos, algo externo e não-orgânico à ação das instituições. Esses e outros mitos, que fazem parte do imaginário de grande parte das organizações, torna o olhar e refletir sobre sua própria prática um momento de muita tensão.

 

Há cerca de dois anos, o Instituto Fonte, em parceria com o Instituto C&A, iniciou um projeto inovador. Seu diferencial estava no fato de, além de implementar um processo de avaliação, isso aconteceria ao mesmo tempo em que se formava a instituição e sua equipe para desenvolver processos avaliativos de maneira mais integrada à própria atividade.

Os resultados da parceria foram apresentados e debatidos por interessados no tema, durante o evento “Questões sobre avaliação”, que aconteceu no mês de outubro, em São Paulo. A grande pergunta era: ao solicitar um processo avaliativo, é possível que a organização também aprenda a avaliar?


“Avaliação não é algo orgânico na maior parte das organizações e esse projeto fala sobre o quanto é importante ouvir as vozes. As organizações precisam ouvir a todos. Precisam aprender a ouvir”.

Octávio Weber Neto, Serviço Social do Comércio


Duas organizações fizeram relatos de seus processos, que contaram com a assessoria do Instituto Fonte. A primeira, a Associação Acorde, é uma instituição de Embú das Artes. O gestor financeiro, Douglas Campos, durante a apresentação da experiência, lembrou que, no início do projeto, queriam entender mais sobre a organização a partir do olhar das pessoas que a utilizam como espaço de formação ou lazer. “De experiências anteriores, coletávamos os dados, mas depois não analisávamos. E o processo era muito mecânico: muito no papel e pouco na prática da instituição. Não queríamos contratar uma empresa que entregasse algo que não tivesse nada a ver com a realidade da Acorde”, recorda.

Douglas conta que uma das metas era sair do lugar frio da avaliação e fazer algo mais orgânico. Junto a isso, a Acordes também estava passando por um processo de transformação. O Centro Cultural Comunitário (CCC) foi uma demanda da comunidade e estava reunindo muitas pessoas em todas as suas noites de funcionamento. Para a organização “tudo era uma surpresa. O CCC estava bombando e queríamos entender o sentido daquilo”, relata o gestor.  

“Fomos a campo e escolhemos fazer entrevistas para a coleta de dados. E começamos a fazer descobertas no meio do caminho”, enfatiza Campos. Para a organização, foi difícil conciliar o processo de uma avaliação participativa e formativa com o dia a dia das equipes e o resultado final não foi diferente das percepções internas. “Mas agora estava embasado. Começamos a tomar decisões com base em fatos. Houve um ganho também para a gestão, pois tínhamos dificuldade de registro. Agora a sistematização está sendo um processo mais contínuo, do dia a dia”, finalizou Cristhiane Oestreicher, gestora da comunicação na instituição.


“Interessante o fato de, na Acorde, o GT (Grupo de Trabalho) de avaliação se tornar um GT de gestão, que tem aprimorado os formatos de decisão. Um processo de avaliação que transformou, na prática, o modelo de gestão”.

Marcus Góes, consultor colaborador do projeto.


“O que pensam sobre a UNAS?”

Foi a pergunta que direcionou a avaliação participativa na UNAS - União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região. De acordo com a pedagoga da UNAS, Beatriz Besen de Oliveira e um de seus coordenadores, José Genário Pereira de Araújo, o Instituto Fonte chegou em um momento de aprimorar o planejamento estratégico, realizado de quatro em quatro anos. “Parecia que o planejamento não fazia sentido para a organização e queríamos que estivesse mais incorporado no nosso dia a dia”, explica Genário.

A Unas tinha crescido muito nos últimos anos. Atualmente, tem 800 colaboradores, faz cerca de 9 mil atendimentos de convênios, mais a gestão do Centro Educacional Unificado, com 4.000 alunos. Os coordenadores estavam preocupados em identificar o que os funcionários pensam sobre a Unas e se conhecem sua história. Oliveira aponta que o objetivo era “entender os níveis de engajamento dos colaboradores para as causas da organização: eles participam por que é importante para a comunidade, ou por que a UNAS faz pressão?”

De forma geral, os representantes da UNAS reconhecem que foi importante para o grupo pensar o seu local. “Mas o processo foi tenso. Somos muito críticos com nossas questões”, avaliam. O formato participativo foi um diferencial na opinião deles, com a construção colaborativa das questões, das análises e do relatório. “Internamente, precisávamos modificar alguns processos, como compactar as reuniões, dividir mais as funções, achar outras formas de organização da gestão. E essa assessoria contribuiu muito nesse sentido”, informam.

Outras visões:

Arnaldo Motta, um dos coordenadores do projeto e associado do Instituto Fonte, lembra que o foco era de favorecer processos de avaliação e formação na própria organização, enquanto formava também a equipe do IF. Ao olhar para os resultados, destaca que foi possível perceber como a avaliação está a favor da própria aprendizagem. “O processo avaliativo acabou canalizando uma diversidade de aprendizados para a própria equipe sobre sua prática”, considera.


“A avaliação é um espaço de reflexão. Espaços de reflexão ainda têm pouco privilégio nas organizações”.

Arnaldo Motta, Instituto Fonte


A associada do IF, que compartilhou a coordenação do projeto com Arnaldo, Martina Rillo Otero explicou que essa foi uma experimentação muito importante em diferentes aspectos. “Primeiro, nos propusemos a fazer uma avaliação com formação, priorizando processos participativos. As equipes participaram de todo o percurso, desde a construção de perguntas, coleta e sistematização dos dados, até a sua análise. E isso foi importante ideologicamente. Esse foi um acordo muito radical nesse sentido do compartilhamento, da democracia do processo”, destacou. Seu segundo ponto de análise é convergente com o de Arnaldo quando valoriza a avaliação com a possibilidade de aprendizado intenso, “pois o contato com as pessoas no momento de escuta gera aprendizagem para a própria organização. Fizemos as análises em conjunto e isso foi uma escolha corajosa do grupo”, finaliza.

A representante do Instituto C&A, Dalvinha Correa, conta que mesmo sendo um processo difícil, ele concentra muitos ensinamentos, como essa visão sobre formar e avaliar por meio de uma metodologia participativa. “Eu vejo o Instituto Fonte como a organização que talvez consiga atuar com a avaliação, desenvolvendo a percepção crítica das pessoas e das instituições sobre sua prática, pois ela parte de uma visão diferenciada com relação ao indivíduo. O que quero dizer é que o indivíduo capaz de observar a si e a sua prática no mundo pode contribuir no desenvolvimento de organizações igualmente capazes de observarem a si próprias, assim como sua prática no mundo”, encerrou.


“Destaco como muito importante nesse caminho da descoberta de outras formas de se apropriar da realidade e a importância da participação durante a observação para o aprendizado”.

Liliane da Costa Reis, consultora de processos avaliativos do IC&A.