O final de semana dos dias três e quatro de junho foram regados a muita chuva não foi motivo para que os vinte participantes da Oficina O Ser Político, iniciativa do Instituto Fonte, IDS e GRA, facilitada pelos profissionais de desenvolvimento Denise Castro, Eduardo Rombauer e Rogerio Magon, abrissem mão de sua presença no Instituto Casa da Cidade, na Vila Madalena, em São Paulo –SP.

As atividades começaram às nove horas da manhã. Uma grande roda se abriu e Denise Castro saudou a todos com o texto A Arte e o Tempo, do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano:

“Quem são os meus companheiros? - pergunta-se Juan Gelman. Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim: que esse poeta, esse pastor e essa mulher são seus contemporâneos.”

Na sequência ela apresentou a proposta do programa o Pensar Político para que os participantes compreendessem o contexto onde se insere a oficina O Ser Político.

O programa, que tem como proposta um trabalho de imersão, visa contribuir com o desenvolvimento de novas lideranças políticas, com potencial de inovação para incidir nas agendas e no processo de formulação e implementação de políticas públicas. “O final do programa é chegar ao que é novo”, conta Denise, que nos questiona: “Afinal, para que estamos indo para a política? Quem é despertado?”.

O que orienta essa iniciativa?

Processos sociais são fenômenos vivos, orgânicos;Cada individuo é o centro e a parte que contém a representação do todo;Cada individuo traz consigo a sabedoria e a verdade emerge da coletividade; A nossa trajetória – o sujeito comum que nunca se viu político e que descobre que sua trajetória é política e por isso traz em si a capacidade de fazer a política;O valor da participação social.

Após a apresentação do projeto, fomos convidados a nos apresentar e contar o que nos trazia ali.

A política me move. Eu acredito na política e atuo de forma partidária. Fiquei sensibilizada com a proposta, Milena Franceschinelli.

Identificar o ser político que nunca atuou e passar a atuar […] Momento de transição que faz todo o sentido estar onde a gente está, Alan Hansen.

Quais são as minhas corrupções?, Mariana Miranda.

Inquietação com a política já institucionalizada, como eu posso colaborar para as mudanças sociais?, Mariana Lyra.

Todos são seres políticos. Por que seguimos seres políticos? Por que idealizamos seres políticos? Por que nos decepcionamos?, Fábio Mortari.

Estou confusa e inquieta sobre o tema. Meu ser político está adormecido. Falta amadurecer algo em mim. Onde estou com tudo isso que está acontecendo? Estou aqui para amadurecer o meu ser político, Helena Gomes.

Onde eu estava? Por que tudo isso está acontecendo e eu não enxergava?, Juliana Cortez.

É dentro da gente que precisa mudar... Não dá pra separar educação da política, Denise Cury.

No próximo passo,após o coffee break, somos então, convidados a olhar para o mundo e relembrar experiências em que fomos tocados no campo político e no campo social. Numa atividade denominada “Compondo a paisagem política”. Nos dividimos em seis  grupos para trocar falar sobre nossas experiências e compartilhamos essas histórias numa plenária. No final, respondemos a seguinte pergunta:

Se essas histórias fossem um filme, qual seria o seu título?

A falta de representatividade e a importância das mulheres para a construção de um novo paradigma político

Impotência potente

Como se posicionar em um não lugar?

Em busca do pulso da vida

Ser político é ser humano

O ser político: Conexão com as minhas vísceras, com os meus contemporâneos, com o meu passado, com o meu presente e com o meu futuro

Durante a tarde, recebemos a visita do vereador Nabil Bonduki, que nos contou um pouco sobre a história do Instituto Casa da Cidade e os eventos oferecidos pela casa.

Nossas mentes e corpos encontraram sintonia através do exercício facilitado por Ivy Moreira, onde analisamos, sentimos e compreendemos a função de nossas escápulas e a de nossos colegas no grupo. Na sequência, Eduardo Rombauer nos convida a olhar novamente sobre as experiências que vivemos e compartilhamos em grupo através de um olhar para dentro de nós: O que meu corpo sentiu? O que mudou? O que sei e o que não sei sobre esse campo? Que questões emergem dessa reflexão?

Compartilhamos novamente nossas respostas sobre tais experiências com nossos grupos com o objetivo de responder, juntos, as seguintes questões: O que se revela sobre o que é o fenômeno político?  Que perguntas precisam ser feitas para saber mais sobre política?

A plenária nos ajudou a criar imagens/frases chave que sintetizaram o que foi compartilhado:

Aprender com a política do afeto

Política é um exercício de cidadania

Discutir gênero é um passo para o fim da opressão

Juliana Cortez compartilha sua reflexão sobre o atual fenômeno político: 

Denise Castro conclui a reunião com a seguinte reflexão: Política é essa coisa confusa, essa coisa complexa, essa coisa difícil, porque se você está consciente dentro dela, isso mexe fisicamente em você, e por isso é necessário o estado de consciência pra você saber se mover, porque quando a gente mexe, como no exercício, com a articulação, vem aquela força que te incomoda, aquela força que é suave, e como é que você consegue continuar se movendo, sem se deixar levar pela dor e sem se deixar levar para o lugar que é confortável? O lugar que você anda, nessa confusão, nessa escuridão, também tem muita luz dentro dela. Qual é a hora de calar, qual é a hora de berrar, mas acima de tudo, qual é a hora de escutar, pra se manter consciente. E nesse caminhar há muita beleza, muita capacidade de se fazer pra mudar. Como é que a gente se move consciente para poder ver as brechas no caminho, pra não se perder, pra dar esse poder, porque ainda existe sim o poder, lindo e maravilhoso que é a capacidade de expressar livremente a minha vontade. Não é o poder da dominação, mas o poder de se permitir e permitir ao outro que expresse toda a sua beleza.

No segundo dia do encontro, Juliana Cortez abre a manhã do sábado, facilitando um exercício, onde pudermos nos atentar aos movimentos e sentidos de nosso corpo, nos preparando, dessa maneira, a se conectar com nosso ser – mente e corpo como uma unidade inseparável.

Para o mergulho ao encontro do ser político que habita cada um, Denise Castro nos conta sobre sua trajetória de vida a partir do que lhe fez pensar sobre o papel do desenvolvimento social na política. Nesse período, conheceu Eduardo Rombauer, que trazia todo esse questionamento que ela estava vivendo. E trabalhando para o Estado, no setor da Pesca, passa a aplicar seu conhecimento através da construção de diálogos entre as pessoas que estavam no Poder, os pescadores e as comunidades carentes, e “tentar fazer com que eles olhem longe enquanto não conseguem nem tocar o pão”. E, junto com o Grupo Recife de Aprendizagem – GRA, em 2011/2012 lançaram a questão “Como a gente trabalha com o desenvolvimento de lideranças políticas?” e Denise quis assumir o desafio. Em 2012 começam a pensar o que poderia ser feito para desenvolver novas lideranças, com um novo olhar, e eles chamaram Eduardo Rombauer para partilhar a experiência dele. Após se ver diante da oportunidade de integrar a um partido e assumir uma liderança política, Denise refletiu: “Se um dia eu tiver que ir pra esse lugar [política institucional] eu quero ir sabendo desse meu lugar; eu não quero mais tropeçar, eu quero ir andando. Viver processo da Pesca consciente de que nele iria aprender muita coisa. Fui selecionada para ser líder da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, me filiei em um partido. Pensei que depois saberia o que eu preciso pra chegar nesse lugar, 2016 chegou e eu ainda não respondi essa questão. 2018 tá aí e eu não sei se vou conseguir responder essa questão. Eu tenho um outro lugar também, esse lugar da reflexão que eu quero amadurecer. E eu vou empreender essas oficinas porque eu quero aprender o que é política. Eu não estou fazendo essa oficina para ser facilitadora, mas porque eu quero ser aprendiz nesse processo”.

Denise conclui falando sobre a diversidade que existe em cada um de nós: 

Após escutarmos a história de Denise Castro, Rogerio Magon lança a proposta de mergulharmos nas nossas histórias de vida. Qual foi o fato de sua vida que mudou a sua jornada? Para onde aquilo te levou?

No primeiro dia da oficina, fomos convidados a olhar para o mundo. No dia seguinte, a proposta foi olhar para si e encontrar duas situações onde nosso ser foi chamado para estar e atuar num espaço e aquilo fez sentido e reverberou no coletivo para o qual se foi chamado e duas situações onde atuamos guiados por uma intenção que não fez sentido, não agregou, o ser não se expressou como queria. Fizemos o resgate dessas histórias de maneira viva e a partir dessas narrativas e buscamos encontrar o ser político que estava à nossa frente e como ajuda-lo a emergir.

Tivemos uma oportunidade, antes da plenária, de escrevermos uma carta para o nosso ser político, com a premissa de que o valor da escrita é o de ancorar essências.

No período da tarde Helena Gomes facilitou uma atividade de movimento corporal onde pudermos, através de alguns exercícios, encontrar o alicerce de nosso corpo. Fizemos uma grande roda com a brincadeira da flecha, que foi finalizada em duas rodas que, juntas, encontraram sincronia de sons e movimentos.

Eduardo Rombauer propôs uma nova busca através de outro exercício: O que eu desejo do meu ser político? Esse desejo requer alguma escolha, uma decisão, algo precisa ser resolvido? E como os presentes nessa oficina, podem colaborar, cuidar junto? Tivemos a oportunidade de escutar três histórias diferentes que traziam esse desejo e que apresentavam diversas questões, que foram abordadas em três grupos, onde os demais participantes tratavam de ajudar a esclarecer e explorar cada caso através de perguntas: O que essa pessoa precisa desapegar? O que essa pessoa precisa desenvolver? O que é o ouro dela?

Na plenária, contamos como é que foi o exercício de cuidar do outro e ser cuidado.

Rogerio Magon convida a todos para um novo momento: pensar nos próximos passos e expressar, cada um à sua maneira, os desejos do que se quer compartilhar no mundo. Com muita cor foram geradas frases impactantes que certamente inspiraram a todos os presentes. Decidimos compartilhar esses desejos com nossos leitores também, para que vocês possam se inspirar, onde estiver, e refletir sobre o seu ser político.

Finalizando a oficina somos convidados a escrever um texto a partir da seguinte pergunta:

Como você percebe o seu ser político a partir do processo vivenciado aqui?

 

A turma toda :)

 

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