Os anos de 2013 e 2014 colocaram a capacidade de facilitar a aprendizagem de alguns dos profissionais do Instituto Fonte à prova: o desafio foi aprender a fazer isso à distância. Tínhamos muitas dúvidas a respeito dessa possibilidade em 2012, quando começamos a empreender estudos nessa direção. Como recriar a intimidade das conversas em roda e “ao redor do fogão” no espaço virtual? Como nutrir uma aprendizagem viva sem olhar nos olhos uns dos outros? Como seguir o fluxo de um processo sem estar diretamente em contato com as pessoas? Perguntas como essas representavam obstáculos para alguns de nós e estímulos para outros. Cinco grandes lições puderam ser extraídas dos empreendimentos que o Instituto Fonte fez nesta área nos últimos dois anos.

Facilitar a aprendizagem à distância requer tanto ou mais preparação dos facilitadores quanto para facilitar eventos presenciais.

Um curso à distância exige tanto estudo, preparo de material e preparo do ambiente quanto uma oficina presencial, especialmente quando não tivemos experiências anteriores nesse campo. Embora possa parecer que o mesmo vídeo possa ser utilizado em quatro cursos diferentes, na prática sempre buscamos melhorar as nossas contribuições com base na experiência anterior. Na verdade, repetir um vídeo também aparece como uma tentação, às vezes, para a qual é preciso estar alerta.

O processo de aprendizagem à distância transfere ainda mais responsabilidade para os aprendizes.

Para muitos brasileiros, facilitadores e participantes, professores e alunos, aprender à distância, utilizando a internet, é uma coisa nova, diferente da tradicional a que podem estar acostumados. É comum pessoas chegarem para uma formação à distância com pouca noção do nível de compromisso e dedicação que é inerente a esse tipo de estratégia. Nesses dois anos, nós fizemos de tudo para facilitar o percurso daqueles com quem conversamos: mudamos o sistema, fizemos tutoriais, oferecemos suporte individualizado, cuidamos das interfaces, utilizamos diferentes programas, diminuímos os tamanhos dos arquivos, ajustamos os tempos e percebemos algo essencial: a principal característica da aprendizagem à distância é que ela transfere quase que totalmente a responsabilidade do processo para o aprendiz.

É ele que vai determinar o ritmo, o conteúdo e o propósito primordial do processo. A aprendizagem será tanto maior quanto mais ele estiver ativo, consciente do processo e trazendo para si essa responsabilidade e não a delegando para alguém. Facilitar a aprendizagem à distância também é, portanto, ajudar as pessoas a serem capazes de conduzir a sua própria aprendizagem e a contribuir com a de outros - não apenas preparar videoaulas perfeitas. É também levar em consideração que as pessoas podem ter diferentes objetivos e caminhos de aprendizagem e aprender a tirar proveito disso.

Facilitadores de aprendizagem à distância precisam estar dispostos a aprender a utilizar novas linguagens.

De 2013 para cá, ficou evidente que uma boa parte da nossa formação profissional se deu a partir de textos e por meio da leitura e da conversa. Nós aprendemos a facilitar a aprendizagem usando esses mesmos recursos, mas estamos num novo tempo: as pessoas estão sendo expostas e buscando aprender de outras formas, por outros caminhos. Como facilitadores da aprendizagem à distância, temos que ser competentes no uso do áudio e da imagem mais do que nunca, além de desenvolver a sensibilidade para a interação pelo celular e pela web.

Isso é quase como aprender uma nova língua para muitos de nós. Além de carregar aquilo que já sabíamos, somos desafiados a aprender muitas outras coisas e a desaprender outras tantas, sem nos perdermos em modismos e nas inúmeras distrações que a conexão global nos oferece. A didática, aliás, assume lugar especial como qualidade a ser desenvolvida, de tal forma que tudo o que aprendermos seja efetivamente colocado à disposição. No Instituto Fonte, estamos convictos que o caminho mais fácil e responsável para isso é o caminho da colaboração e do trabalho em equipe.

Interações à distância demandam presença.

Facilitar a aprendizagem à distância tem a ver com provocar a reflexão e tornar as contribuições de cada participante acessíveis para as outras pessoas. Isso significa estar atento e sensível para o que mantém as pessoas interessadas, fazendo esforço para a organização das postagens de forma que a contribuição de um participante esteja localizada estrategicamente, ou criar condições para que os participantes não tenham que gastar seu tempo tendo que localizar o que interessa, mas, sim, desfrutando do que está à disposição. Para intervir na qualidade da aprendizagem, o facilitador, assim como o faz presencialmente, precisa estar disponível para influir na interação e responder às postagens fazendo sínteses, situando contribuições individuais, espelhando e levantando novas perguntas e valorizando a troca entre os participantes, não apenas com ele mesmo. Constatamos que é desestimulante para alguém fazer uma postagem e descobrir que suas ideias ficaram perdidas em um fórum qualquer, assim como é desmotivador encontrar um monte de ideias amontoadas e não ter a menor noção de como distinguir o que é relevante. Em um curso à distância, o facilitador precisa estar preparado especialmente para um alto grau de diversidade dos participantes, pois eles tendem a vir de muitos locais diferentes, trazendo uma multiplicidade de culturas em cada evento. Isso implica muita disposição em ouvir, se surpreender, aprender e não reagir a partir de estereótipos ou conceitos da própria cultura. Muitas conversas que tivemos nesses dois anos foram diferentes das que estamos acostumados! Aliás, o tamanho dos grupos pode variar muito num percurso de aprendizagem à distância: um mesmo profissional pode ter que trabalhar com um grupo de 15 pessoas e um grupo de 100 ou mais pessoas - ao mesmo tempo e simultaneamente a outros trabalhos! A capacidade de se conectar e reconectar com os grupos é algo a ser desenvolvido numa jornada destas. Ainda, vale destacar que, por sua complexidade, a facilitação da aprendizagem à distância tende a ser melhor quando feita em equipe.

As pessoas valorizam convites para experiências que vão além do conteúdo e da troca.

Nos percursos que oferecemos, um tipo de atividade que funcionou muito bem foram exercícios de observação - o que nos surpreendeu. Os participantes eram expostos a uma imagem, música ou vídeo, ou orientadas a fazer atividades usando o que têm próximas a si, seguindo instruções especiais. A partir da experiência, podiam compartilhar suas observações, percepções, descobertas e associações, para, finalmente, explorarem o que os colegas produziram. Foi muito bom perceber como a construção de cada um ampliou a construção do outro e vice-versa! Tínhamos muitas dúvidas de que isso seria possível.

De certa forma, parece que chegamos ao final de uma primeira etapa dentro de um grande projeto de aprendizagem em que somos facilitadores e aprendizes. Uma parte em nós chega esgotada pelo investimento realizado, outra parte chega encantada com as possibilidades. Um novo programa emergiu para ampliar ainda mais as perspectivas de interação com e entre profissionais que trabalham com desenvolvimento em diferentes territórios, assim como aflorou um desejo vibrante de embarcar em novos projetos e novas aventuras voltadas para o fortalecimento de iniciativas sociais que contribuem para a transformação do mundo ao mesmo tempo em que realizam a transformação em si mesmas.

* Texto de Antonio Luiz de Paula e Silva, coordenador principal do programa Formação Web, para o Relatório de Gestão 2013-2014, disponível aqui.