Nosso trabalho de consultoria de processos, dentro de uma organização do terceiro setor em que não nos vinculamos a um empregador que nos garanta clientes e salários, explicita, de forma mais evidente do que em muitos outros casos, a importância que o trabalho tem na vida das pessoas.

 

O trabalho é para nós uma frente importante de autodesenvolvimento, pois é o ponto onde se cruzam as polaridades representadas pelas dimensões internas e externas da nossa vida: a dimensão interna, pessoal, onde queremos avançar rumo aos nossos ideais e à autorrealização; e a dimensão externa, onde nos confrontamos com o mundo real em busca de espaço para atuar.

O que acontece no relacionamento dessas duas dimensões afeta diretamente nossas próprias expectativas e as expectativas dos outros sobre nós, nossos anseios, nossos objetivos, nosso humor. Quando surgem dificuldades, elas geram frustrações que parecem questionar todo o nosso caminho como indivíduos. Tudo isso se mistura dentro de nós e nos faz sentir como se estivéssemos dentro de uma nebulosa onde não conseguimos discernir quase nada...

É assim que surgem as crises. E tudo se precipita como num turbilhão. Tudo confronta a nossa autoimagem, tudo provoca insegurança e desânimo, tudo nos indispõe contra o mundo e, pior, âmbitos da vida que estavam correndo bem parecem ficar contaminados por um ânimo abalado. Abandonamos até os projetos antes tão acalentados, pois se impõe uma retirada da cena para poder pensar, para poder entender o que está acontecendo.

Isso pode durar muito tempo. Isso pode nos desorientar completamente e nos levar a cantos nunca suspeitados ou a um isolamento onde possamos sofrer em silêncio. E é aí que entra em cena um mecanismo de autopreservação do qual podemos, muitas vezes, não suspeitar: evitamos pedir ajuda e, quando pedimos, não reconhecemos a validade das respostas que recebemos. E isso só preserva os mesmos valores que fizeram a situação chegar onde chegou, num círculo vicioso. Como sair disso? Como escapar dessas situações que nos levam a sofrimentos extremos?

Crises, frequentemente, são ‘turning points’ nas nossas vidas. São pontos de virada. E só é possível sair deles se conseguirmos enxergar, com clareza, os padrões que nos levaram a elas e nos dispusermos a abandoná-los, a transformá-los, alcançando outro patamar de desenvolvimento. Assim, toda crise exige coragem e contém esperança.

Coragem de objetivar o que está acontecendo, coragem para identificar as formas como costumamos reagir, de perceber o que em nós é insuficiente no momento presente. Coragem para ver bem a cara do nosso sósia e para lidar carinhosamente com ele e, assim, deixar o nosso eu superior brilhar. Coragem para nos desprendermos das nossas insuficiências e para compreendermos o incompreensível. Coragem para percebermos que nada vem de fora e que, na verdade, tudo o que nos acontece é provocado por nós mesmos. Coragem para assumir que ninguém senão nós mesmos é que somos responsáveis pelo que a vida nos traz.

Turning points impõem o alcance de um novo patamar de consciência sobre nós mesmos, sobre a verdade, sobre o mundo, sobre a vida. Mas isso exige que aprendamos a equilibrar melhor o amor - que nos une ao mundo, com a liberdade - que nos separa dele.

 

*Texto de Mariangela Paiva, integrante do Núcleo de Consultoria do Instituto Fonte, para o Relatório de Gestão 2013-2014, disponível aqui.