Formação de não-lideranças

Domingo especial. Reencontro de velhos amigos empreendedores de uma iniciativa social de educação em direitos. Me reencontrei naquele momento (o que era o que sou; saudades e alívios) com velhas e novas questões.

Lido com a conclusão de que acredito na educação em direitos como um dos pilares de uma formação política/cidadã/crítica com potencial de ação e intervenção e, além disso, que esta prática tem uma série de princípios que deve reger, a maioria deles coincidentes com os princípios da educação popular (que tanto preciso estudar...).

Poucas conclusões e muitas dúvidas. Sou tomada de angústia quando penso na minha prática e na de outros colegas, quando transvertidos de educadores...Há muitas questões que gostaria de formular e discutir com interessados..

Uma delas...Adoro trabalhar com formação de não-lideranças!!! Um contraponto à vocação de cursos e mais cursos de formação de lideranças (populares ou coorporativas). Uma professora de literatura dos tempos de colégio nos disse uma vez, que um país forte em literatura é aquele que tem muitos escritores muito bons, classificados por ela como “B” e menos excepcionais “A”.Este seria um país melhor do outro com muitos “A”s e poucos “B”s.

Se fizermos um paralelo com o campo social; diria que um campo forte deve ter muita gente boa, capacitada, sensível, forte; mas não precisam ser líderes. E em muitos momentos penso: que bom que não sejam!

Aprofundando minhas questões sobre isso, posso estar ainda com uma postura equivocada. Posso estar desconsiderando algumas questões anteriores: o que chamo de um “líder”? Que habilidades reconheço num bom líder? Posso ter habilidades de liderança e não ser líder? Em que contexto se reconhece um líder?

Durante algumas oficinas que fizemos em um curso de lideranças femininas (2005/6) essas questões ficaram mais vivas em mim. Muitos diriam que não tinham muitas “líderes” como participantes naquele curso e, de fato, não tinha mesmo. Eram donas de casa, avós, professoras; mulheres como quaisquer outras sem atuação política (articulações públicas ou locais) que buscaram uma formação diferente; conhecer melhor os direitos, talvez, ou apenas uma manhã de sábado fora de casa, ou alguém pra conversar... Não saíram de lá líderes; mas muitas ficaram mais corajosas; conseguiram dizer “não” aos maridos e filhos; passaram a não aceitar serem chamadas de “baianas” num tom pejorativo; buscaram novas práticas em suas vidas.

Acho que isso vale. Mas mais dúvidas surgem disso; qual o papel da educação em direitos nisso?...Mas fica para um próximo dia...

Comentários

Hum 2...

Será que ele não fortalece a aquisição de repertório e conhecimento em direitos para a luta por garantia destes? Não sei se aula de primeiros socorros teria tanta efetividade nisso.
Penso que o ensino de Direitos não precisa estar num ambiente terapêutico não. Todavia, um ambiente de confiança e empoderamento ajuda muito. Como em qualquer espaço de aprendizagem...

Transformações invisíveis?

Como educadora vi muitas instituições selecionando jovens líderes para seus programas. Até aí, tudo bem. Mas e aqueles jovens que têm um potencial enorme, que só precisam conhecer melhor os direitos e, acima de tudo, de confiança neles mesmos? Que lógica estamos reforçando quando selecionamos apenas "líderes"?

Quanto a formação será que existe algo mais efetivo em relação aos direitos do que provocar mudanças tão significativas como estas que você mencionou? Elas não são absolutamente necessárias para romper as diferentes dinâmicas que impedem a participação e a cidadania destas senhoras, ou de qualquer outra pessoa?

Penso que este sim, é um trabalho de formação de lideranças.

hum...

Certamente. Com razão e propriedade, Tânia.
As mudanças de natureza pessoal (empoderamento, sensibilização, fortalecimento) pode ser o que realmente pode ser a diferença entre aqueles que pensam em fazer e os que fazem.
Mas, então, talvez o efetivo não seja o trabalho com o direito (ensino e conhecimento dos direitos),mas, sim, todo o resto. O respeito no trabalho em grupo; num ambiente quase que terapêutico; ambiente de cuidado. Qual a importância e relevância do direito aí? Ele faz parte? Deveria ser substituído por aulas de nutrição e primeiros socorros? Ou quem sabe de circo? [não jogo no lixo o trabalho com o direito, mas quero entender seu lugar!!!]

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