Qual é a real possibilidade de transformação social do investimento social privado?

O Campo Social em Debate

 

Tema: A real possibilidade de transformação social do investimento social privado

 

Contribuição de Oded Grajew

 

O nosso convidado foi claro e direto em sua fala.

Já de início delimitou quais são as possibilidades reais de transformação social que se pode esperar do investimento social privado. Este advém de empresas que doam, quando muito, 1% do seu faturamento. Atenção, pois esse dado vale para as grandes campeãs de doação.

A partir desse número explicita-se qual é o lugar que este tipo de ação tem para a empresa, ou seja, 1% de sua energia (quando chega a tanto) vai para ações de caráter social.

Por isso, segundo nosso convidado, apesar de muita propaganda e muito marketing, não serão as empresas que irão mudar o panorama de injustiça da sociedade. Quem tem esse papel é o Estado, através da confecção e implementação de políticas públicas. Mas então surge a questão: quem compõe o estado?

Oded é claro em dizer que, no mundo atual, o poder está na mão das empresas e do capital privado.

Quem elege os políticos que legislam sobre as políticas públicas?

Quem elege são as pessoas (nós), que o fazem a partir de campanhas. E aí vem um grande desafio, já que as 98% do financiamento das campanhas políticas vêm das empresas.

Segundo Oded a empresa investe no seu candidato e espera retorno do seu investimento.

Por isso afirma: precisamos abrir mão da idéia de que alguém (empresa, instituição, liderança, etc.) vai mudar o mundo por nós e para nós.

Apesar disso o investimento social privado tem a sua razão de ser, desde que colocado no seu devido lugar.

Um passo importante é separar o joio do trigo, ou seja, as empresas realmente interessadas e comprometidas com uma ação social, das oportunistas. Para tal tarefa Oded indica observar a empresa doadora e verificar se a proposta de investimento social tem respaldo nas atitudes que a organização adota, tanto no seu plano interno, quanto no externo, quando está a serviço do seu negócio.

A incoerência entre o que uma empresa propõe para um projeto social e suas práticas nos seus negócios pode ser um indicador para separar as reais intenções do financiador.

Feito isso resta a nós, que fazemos uso do recurso privado para ações sociais, termos a coragem de fazer as escolhas corretas.

Novamente a bola está em nossas mãos.

E o jogo continua...

Comentários

Continuando a conversa

Caro Marcelo

Compartilho da sua percepção de que a situação de desigualdade social avançou um pouco no Brasil. Porém, o índice GINI diz que esse pouco é quase ínfimo quando se leva em conta os 500 anos de colonização do Brasil.
Embora você atribua esse pequeno movimento aos que legislam e detém o poder nas mãos, eu entendo que a sua origem está na lutas e movimentos da sociedade civil, cuja maioria vem sendo excluída da possibilidade de usufruir das riquezas e recursos que ela própria gera.
Temos muito que avançar no sentido de uma sociedade mais justa e igualitária, como você diz, e me parece que isso não se dará de outra forma que não através da constante mobilização de todos nós. Para isso é fundamental manter a reflexão crítica e a noção de processo que permeia a nossa história. Considero essa uma das formas de evitar uma armadilha comum a muitas iniciativas sociais de hoje, que é a de superestimar a capacidade de transformação do investimento social privado. Essa preocupação foi uma das motivações para que constituíssemos esse espaço de discussões chamado “O Campo Social em Debate”, que espero tenha cumprido sua função, embora, como disse, o exercício crítico e reflexivo deva se manter presente em todo o nosso percurso.

Atenciosamente
Arnaldo Motta

Investimento Social

O que observo neste contexto é que as fases de amadurecimento de idéias tem um tempo real e necessário e as obras sociais, tão necessárias para a maior parte da população brasileira e mundial, vai evoluindo de acordo com as culturas locais, leis, etc., estando o resultado disso tudo nas mãos de quem legislam e detêm o poder nas mãos.
Passado quase um século da compreensão da necessidade de se ter políticas de ação social aqui no Brasil e ainda vivemos na idade da pedra em matéria de benefícios sociais. Este tipo de ação é diretamente proporcional ao preparo e educação de um povo e com certeza vai continuar evoluindo como tudo na vida. Aqui no Brasil acabaram havendo alguns avanços por força da determinação de algumas pessoas que já conheceram ações tomadas em outros países onde esta prática é muito mais ativa do que por aqui.
Aqui ainda se pratica o assitencialismo, onde as instituições ou aqueles que desejam fazer um trabalho social, precisam estar indo para todo lado, com um chapéu na mão, pedindo recursos para realizarem os seus projetos.
Como diz o Sr Oded, apenas 1% da energia das empresas é disponibilizada para este fim, o governo dá as suas migalhas, porém, exige lealdade e aceitação a tudo que legislam, e as instituições, por necessidade, acabam aceitando certas condições que no futuro tornam-se verdadeiras armadilhas na hora do acerto de contas.
Infelizmente, nós ainda vivemos uma era onde o doador dá pouco para as lutas e necessidades sociais, enquanto que cobra muito em matéria de resultados.
É preciso sair da era pré-histórica deste contexto social e avançar para um novo patamar que o Brasil merece porque tem a força, o carinho, a fraternidade, o desejo e a perseverança para alcançar novos rumos na luta constante das pessoas de bem para melhorar a condição dos menos favorecidos.

Marcelo Rachid de Paula
http://alavancasocial.wordpress.com/

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