por Daniel Brandão

Etno significa, em grego, povo, raça ou grupo cultural. Grafia significa escrita. Etnografia é uma subdisciplina da antropologia descritiva que dedica-se a compreender crenças, valores, desejos e comportamentos dos sujeitos por meio de uma experiência vivida. Tem como premissa “a tentativa de apreender, numa perspectiva evolucionista e global, o comportamento humano em situação natural, e de compreender esse comportamento dentro do quadro de referências no qual os indivíduos interpretam seus pensamentos sentimentos e ações” segundo Domingues (1988).

Dois pilares modelam e sustentam o método etnográfico: a interação prolongada entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa e a interação cotidiana do pesquisador no universo do sujeito.

A formação do campo da etnografia remota aos séculos XV e XVI quando a descoberta do “novo mundo” revelou a existência de um outro ser humano, fora do universo cristão. O encontro com este ser humano provocou questões de natureza cosmológica entre os intelectuais europeus. Conhecer a origem destes povos e sua relação com o ato de criação divina que deu vida a Adão e Eva tornou-se um dos problemas centrais. Como conceber a multiplicidade de origens, histórias e o desenvolvimento de múltiplas raças, culturas, padrões morais e civilizações? Uma reflexão, de natureza formativa, emerge: Como é possível compreender o outro quando os valores dele são diferentes do seu? Estas perguntas desafiavam o monopólio da verdade que guardava o Cristianismo. Verdade essa compreendida pela perspectiva platônica como imaterial (presente somente no plano metafísico), única, imutável e eterna.

As primeiras observações etnográficas consistiram de relatos e descrições oferecidos pelos administradores das colônias, pelos missionários e bucaneiros. Tais relatos eram elaborados a partir da perspectiva do conquistador e “civilizador” de povos “primitivos”, onde o observador via uma imagem ao inverso no espelho de seu ideal etnocultural (Vidich e Lyman, 2000).

Posteriormente o etnógrafo re-configura, em parte, as questões de fundo moral cristão para inseri-las no espaço das teorias da evolução social por meio da aplicação de princípios evolucionistas de Darwin (1809-1882). Reconhece-se a possibilidade de uma convivência sincrônica de distintos valores que respeitariam uma classificação hierárquica. O foco dos questionamentos convergem para a compreensão do desenvolvimento das sociedades e culturas.

Em busca de uma sistemática de classificação para todas as ciências, Auguste Comte (1798-1857), a quem se atribui a paternidade do positivismo e da sociologia, propõe o “método comparativo”. No campo de investigação etnográfico, em período inicial de desenvolvimento, este método permitiu classificar as culturas em três estágios de evolução, sugeridos também como épocas de crescimento moral, e calcados no referencial europeu. Compreendia-se a transição evolucionista era progressiva e irreversível, partindo-se da selvageria, passando pelo barbarismo até alcançar a civilização.

Ao final do século XIX discutia-se que os dados de campo deveriam ser recolhidos diretamente pelos pesquisadores, e não depender informações intermediadas por aqueles que estavam nas colônias. Em 1874 a Associação Britânica pelo Avanço da Ciência publica o caderno Notes and Queries on Anthropology que passa a orientar a ação dos etnógrafos na sua aproximação com o campo.

Munido de um exemplar deste caderno Bronislaw Malinowsky (1884 - 1942), polonês, viaja em 1914 ao pacífico ocidental para estudar os Trobianos. Ao explodir a segunda guerra mundial as rotas de navegação marítima se alteram e o impedem de sair da ilha onde fica estabelecido até 1918. O contexto o impele a desenvolver seu estudo exercendo a convivência prolongada e cotidiana, onde Malinowski procurou se apoderar do ponto de vista do “nativo”. Esta técnica, por ele inaugurada, foi cunhada de observação participativa. Com este comportamento de campo o pesquisador assume um duplo papel: engaja-se nas atividades apropriadas da situação e as observa como pesquisador (Domingues, 1988). Sua experiência e método são publicados em 1922 no livro Os Argonautas do Pacífico. Malinowski é reconhecido por ter inserido a o trabalho de campo como aspecto central da etnografia e por ter fornecido as credenciais cientificas ao método etnográfico.

No mesmo ano (1922) outra experiência relevante para a etnografia é o filme Nanook of the North, sobre a vida dos esquimós, de Robert Flaherty’s. Este filme marca a abordagem cinematográfica do gênero documentário e aponta que a linguagem áudio-visual será, ao longo do século 20, apropriada para a observação e para a narrativa etnográfica.

Em 1967, após a morte de Malinowski, é publicado Diários no Strictu Sensu  com as memórias do etnógrafo durante sua convivência com a população do Pacífico Ocidental. O livro causa mal-estar ao revelar que o autor fora bem menos participante da sociedade “nativa” quanto pregara e sua perspectiva sobre a sociedade local estava temperada por pré-conceito eurocentrado.

Compreensões pós-modernas da etnografia são marcadas pela concepção de que todo aspecto da existência humana é culturalmente construído, o que os torna particulares e localizados, sem possibilidades de generalização. Nesta concepção, o significado social de uma situação histórica é sempre relativo e temporário. A etnografia dedica-se “compreender como este momento histórico universaliza a si próprio na vida de indivíduos específicos” (Denzin Apud Vidich & Lyman, 2000). O etnógrafo não é um mero observador da história, mas sim um participante e informante do processo.

 

Daniel Brandão é consultor de processos do Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social - daniel@fonte.org.br


Referências Bibliográficas

 

DOMINGUES, J.L. O Cotidiano da Escola de 1o Grau: O Sonho e a Realidade. Goiânia: EDUC, 1988.

 

SEVERINO, J.S. Filosofia. São Paulo: Cortez Editora, 1994.

 

SMITH, G. & BALL, M. Technologies of Realism? Ethnographic Uses of Photography and Film.  Handbook of Ethnography. Newburry Park,CA: Sage, 2001.

 

TEDLOCK. B. Ethnography and Ethnographic Representation. Handbook of Qualitative Research. Newburry Park,CA: Sage, 2000.

 

VIDICH, A & LYMAN, S. Qualitative Methods: Their History in Sociology and Antrophology. Handbook of Qualitative Research. Newburry Park,CA: Sage, 2000.